Eis a solução do seu dilema:
Junte seus problemas em uma sacola
Amarre bem a boca e jogue fora.
A tal sacola iria fora à boa hora
A sacola de casa, do trabalho, da escola...
E haja sacola pra tanto problema.
Eis a solução do seu dilema:
Junte seus problemas em uma sacola
Amarre bem a boca e jogue fora.
A tal sacola iria fora à boa hora
A sacola de casa, do trabalho, da escola...
E haja sacola pra tanto problema.
Três da tarde, um calor de rachar. Do asfalto sai uma fumaça transparente que deforma tudo o que se vê através dela. O sol não perdoa aquela cabeça que está quase de miolos cozidos, mas que teima em continuar andando. Andar é o mínimo que ele pode fazer pra conseguir se livrar daquela farda que torna o dia muito mais quente.
Preferiu trocar o vale-transporte por chocolates e outras besteiras, e ir pra casa à pé. Enquanto comia os chocolates nem lembrava desse sol. Agora só lembra dos chocolates que estão embrulhando seu estômago. Uma vez ouvira falar que o resultado da equação “chocolate + calor” não era muito bom. Agora sentia na pele essa verdade.
O melhor a fazer talvez fosse tentar esquecer. Contar os postes do caminho. Esquecer que aquilo era um caminho. Estava tão longe e a Frei Serafim era tão imensa, pra quem a percorre a pé...
Nesses delírios de fome e sede, à uma distância infinita de casa, quase foi atropelado por um carro. Ao invés de lhe oferecer uma carona, o cara engravatado e mal-humorado lhe xingou. Coitado! Não deve ter tido uma boa adolescência! E continuou o mirrado estudante em sua longa viagem, com seu imbatível bom humor.
Por que diabos esse condicionador de ar não esfria? Ter que andar de terno e gravata nesse calor era, definitivamente, a pior parte desse serviço. Cobranças de clientes, má vontade de juízes, perder a paz... não. Nada disso era pior.
E agora, esse trânsito infernal. Motociclistas enfiam-se no espaço onde só cabem exatamente suas motos, que vão costurando tudo. E buzinando; o celular toca, mas ele não pode atender, pois ali na frente tem um homem de boné branco que está doido pra lhe tirar o sangue...
Pega um chocolate no porta–luvas e come. Lembrou-se que há muito tempo ouvira falar num desagradável resultado para a soma “chocolate + calor”. Mas não se importava com isso agora.
Ás vezes sentia saudades dos tempos em que trocava os vales-transporte por chocolates, e acabava voltando pra casa à pé. Ia que nem sentia o caminho.
E nesses devaneios de chocolates no calor que o ar condicionado do carro não diminui, quase atropela um estudante magrinho que atravessava a Frei Serafim distraído...
Onde esses estudantes de hoje em dia andam com a cabeça? No seu tempo era tudo tão diferente... Buzinou, xingou o rapaz, e foi embora com seu mau humor.
Até as horas mais recônditas
A luz azul entorpece-me
E sua conversa encanta a qualquer um
Mas chega o momento
Crucial em que tudo se
Transforma em quase nada
São brancos e chiam.
Todos chiam.
O azul vira branco por inteiro
E ao som do chiado me levanto
E vou enfrentar
Todos os monstros do banheiro.